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MINHA VIDINHA DE CACHORRO Jamil Snege publicado em: Gazeta do Povo, 2 de maio de 1999 Este texto foi psicografado, por isso é importante que eu me identifique logo como seu verdadeiro autor. Meu nome é Tarugo - e não me perguntem por que me botaram esse nome. Nós, cães, não costumamos contestar os nomes que recebemos. Puseram Tarugo, eu aceitei. Um nome é um nome, nada mais que isso. Não faz a menor diferença. E apenas urna necessidade que os humanos têm de dar nomes às coisas, desde que começaram a falar. Substituir a coisa por um som - não é uma tolice? Nós, da comunidade canina, temos um método muito mais eficiente. Isto mesmo: uma cheiradinha. Um nome olfativo. Basta contornar o companheiro, chegar por trás e snif! - já identificamos o cara. Se os humanos fossem realmente espertos, usariam o mesmo método. Mas eles acham que não ficaria bem. Já imaginou - dizem eles - o governador receber a visita de um representante estrangeiro, contornar e...? Tudo bem. Deixemos pra lá essa questão de nomes. O que me trouxe aqui, em espírito (vocês já devem ter notado que sou um cão falecido), é uma questão muito mais seria. Eu quero denunciar a tremenda injustiça que os humanos estão fazendo conosco. Se o cão é o melhor amigo do homem, a recíproca nunca foi tão falsa como agora. Vamos aos fatos. Vocês viram alguma notícia na imprensa de cães que são agredidos, feridos ou mortos por seres humanos? Nunca. Vocês vêem exatamente o contrário. Cães agredindo. Cães mordendo as canelas de velhinhas indefesas. Cães atacando garotinhos angelicais. Cães perversos. Feras assassinas pondo em risco a sobrevivência da humanidade. Eu que morri aos três anos, sem nunca ter abocanhado um glúteo, posso muito bem me insurgir contra essa descarada hipocrisia. O que vocês estão fazendo conosco é uma verdadeira cachorrada. Começa que somos numericamente inferiores a vocês. Um cão para cada sete pessoas, dizem as estatísticas. E já que falamos em estatísticas, sabem quantos cães foram mortos nas ruas somente no ano passado em Curitiba? 5.730. Isso mesmo: cinco mil, setecentos e trinta cães. Vítimas de atropelamento, envenenamento e outras crueldades maiores. Algum vereador propôs qualquer medida pra reduzir essa catástrofe? Ao contrário: propuseram o uso de focinheiras. Não nos humanos, mas em nós. Só quem nunca foi cachorro pode aprovar uma barbaridade dessas. Cachorro não tem glândulas sudoríparas, como outros animais. Cachorros não podem suar, como suam os vereadores. Nós precisamos abrir a boca e botar a língua de fora para controlar a temperatura do corpo. Não é para fazer gracinha, não, nem para cativar eleitores... Mas deixem eu contar minha história. Eu era um cachorrão bonito, pêlo marrom, curtinho e brilhante. Minha mãe era boxer, meu pai era fila. Puxei mais o meu pai e muita gente me confundia com um fila de verdade. Até os dois anos e meio tudo correu bem. Eu tinha uma casa, uma família e uma tigela de ração bem cheia. Disciplina militar: meu dono era capitão, gostava de ser obedecido. E eu o obedecia, principalmente quando havia visitas. Ele ficava todo orgulhoso, não da minha obediência, mas da sua capacidade de comando. Eu, generosamente, deixava que ele colhesse os aplausos. Tenho impressão que no quartel as coisas eram um pouco diferentes. Mas vamos lá. Um belo dia, o capitão anunciou que ia ser transferido. Embrulha, encaixota, embala - sobrei eu. Resolveram me dar para o jardineiro. Amarga experiência. Não sei se alguém de vocês já foi cachorro de jardineiro. E horrível. Você não pôde fazer buraco, deitar nos canteiros, rolar no gramado. Se uma planta secar, foi você que mijou nela. Não agüentei. Fugi. Mas não tive nem tempo de me arrepender. A famigerada carrocinha me pegou e lá fui eu trancafiado para o Canil Municipal. Nunca imaginei que houvesse tanto cachorro na cidade. Celas superlotadas, pulgas aos milhares, companheiros que nunca tomaram um banho na vida. Voltando às estatísticas: dos 4.271 cães que a Prefeitura capturou no ano passado, só 1.485 voltaram para os braços de seus donos ou arranjaram uma família adotiva. O restante dançou: 619 foram doados para instituições de ensino e pesquisa (bisturi, extração de órgãos, etc.) e a maioria, exatamente 2.167 cães, foi sumariamente eutanasiada. Gostaram do verbo? Pois é como eles dizem lá: eutanasiar. Matar, sacrificar, exterminar são termos muito duros. Eles preferem eutanasiar. Não preciso dizer que fui um dos eutanasiados. Me agarraram, prenderam uma borracha ao redor do meu focinho e - doida - miseravelmente ardida - me aplicaram uma injeção de sal amargo. Morri feito um cão, as pernas amolecendo, a cabeça pesando, um calorão desgraçado explodindo dentro do peito. (Assim termina o protesto de Tarugo, o Breve, que jaz sob toneladas de lixo no Aterro Sanitário desta mui ecológica e humana Cidade de Curitiba, amém.) O CÃO autor desconhecido Quando Deus criou a terra e o céu Nada foi deixado ao léu As árvores, as flores os peixes no mar, As aves e insetos, passando no ar E quando finalmente terminou Tudo era novo, belo e profundo O Senhor então pensou vou sozinho caminhar por este mundo Viajou muito e um nome dava a tudo que via E por onde quer que caminhasse Uma pequena criatura o seguia Sempre a seus pés, mesmo quando a força já fugia Finalmente sobre a terra, céu e mar, Tudo tinha um nome, tudo estava no lugar E a pequena criatura então falou: E a mim Senhor, de que maneira, vais chamar? Fazendo um carinho no cansado animal, Ternamente o Pai lhe disse: "Deixei-te p'ro final" Mas não te entristeças comigo Pois mais que um nome, te chamarei de Amigo!! HISTÓRIA DE LUI Eunice Jacques Ela vendeu o carro flamejante, juntou outras economias, comprou a própria casa e deixou o lar materno disposta a enfrentar a própria vida. E, apesar dos protestos e temores familiares, assumiu-se adulta e mulher e mudou-se com meia dúzia de pertences. Geladeira, fogão, a cama e pouco mais. Além de Lui, é claro. Lui é um pastor alemão que é seu encanto e que por ela é encantado. Tanto empenho e tantas transformações tinham lá seus motivos. O maior deles era um amor mal resolvido. Por quatrocentas razões, mas mal resolvido. Sabem aquele tipo de amor que tem tudo para morrer e não consegue? Era dessa estirpe, das terríveis. Num fim de tarde, inesperadamente, o amado bateu-lhe à porta. Aquela história: a vontade de correr ao abraço de tanta saudade, a fortaleza de manter-se à distância, o constrangimento, o faz esconder a paixão, o lado social, o queres-beber-alguma-coisa? Depois, vem-conhecer-a-minha-casa. E foram os dois. Quando entraram no quarto, eis que havia Lui, maravilhoso e divino, deitado de todo o comprimento cama dela. E com a cabeça no travesseiro e tudo. Ele, repentinamente, segurou-lhe os ombros e, com a boca muito próxima, disse: “Não suporto cachorro dentro de casa. É ele ou eu.” “É ele”, respondeu ela, prontamente. E o amado se foi pela mesma porta em que entrara. Mas sabem o que é amor renitente, possuído, o amor que deixa sem graça tudo o que está distante do ser amado? Passados alguns dias de rancoroso e aflito silêncio, também num fim de tarde, ele voltou. Bateu à porta e quando ela viu quem era, por mais que tentasse não conseguiu esconder o ar de plena felicidade. Ele também feliz percebeu. Mas, como a história estava mal resolvida já há alguns meses, quedaram-se nos cotidianos. Naquelas conversinhas bobas em que os dois sabem que estão fingindo. E o que é melhor: um sabe que o outro também sabe. E Lui ali perto, numa boa, fingindo igualmente que não estava com ciúmes. Até dormitou, diga-se a bem da verdade. Então o amor mal resolvido resolveu resolver-se. E foi absolutamente natural que, entre juras e afagos, os dois procurassem a cana. E mal nela haviam chegado quando começou uma tempestade, com raios e trovões. Esqueci de contar que Lui detesta trovoadas. Na primeira que escutou, procurou companhia. E com todo o peso de uma pastor alemão assustado, se jogou em cima justa daquele que lhe roubava a atenção da dona. Os outros dois tentaram de tudo: um colchonete macio no outro quarto – que Lui rejeitou fazendo um lago de pipi; bolinhos de carne dos quais teve súbito fastio, o famoso “olha o gato” para o qual se fez de surdo. E todo o resto que se possa fazer a um cachorro mimado. Passaram a noite em claro. Mas se contentaram – e a história é absolutamente verdadeira, quase nada inventei – viram os três o nascer do sol sentados à soleira da porta. Partilhando amor, cada um do seu jeito. CACHORRÓLATRA Doris Engbertson tradução: Silvia Düssel Schiros Olá. Meu nome é Doris e eu SOU uma cachorrólatra. Sejam bem-vindos à reunião mensal dos Cachorrólatras Anônimos. Alguns de vocês estão aqui hoje porque algum amigo ou parente os trouxe. Talvez vocês estejam sentados aí, pensando que estão bem e não precisam de ajuda. Não é fácil admitir que se é um cachorrólatra, muito menos vir a uma reunião do CA para obter ajuda. Mas o CA está aqui para ajudá-los. Vou fazer algumas perguntas. Se vocês responderem SIM a mais de três delas, estão no lugar certo.
Se você tiver respondido SIM a duas perguntas, a coisa é séria. Se você tiver respondido SIM a três ou mais perguntas, está no lugar certo. Para aqueles que responderam SIM a três ou mais perguntas, meu conselho é: relaxem, sorriam, virem-se para a pessoa sorridente ao seu lado e saibam que suas vidas serão sempre repletas de bons amigos e bons cães, e vocês nunca saberão o que é a monotonia. COMO EMBRULHAR PRESENTES COM CÃES NA CASA autor desconhecido tradução: Silvia Düssel Schiros
TRIBUTO A MICHEAL Rhonda Stevens tradução: Silvia Düssel Schiros adaptação: Simone Sobrosa Nota da autora: Jean Luc era meu poodle standard e Micheal (Mikey) era um pastor alemão branco. 12 de agosto de 1999 Meu velho querido… Este é um dia horrível para mim, o dia em que te ajudei a cruzar a ponte do arco-íris… Eu não te conheci por muito tempo, foram 6 anos de uma vida de 13. Você me fez rir no dia em que seguiu Josh, quando ele caminhou até Jades. E de quando Josh quase fugiu de casa, e você decidiu mandar tudo pro inferno e ir com ele. Ele disse que você o protegeu dos estranhos. Também me lembro quando a irmã caçula de Jades tentou fazer crochê pela primeira vez. Você estava tão orgulhoso com aquela coisinha cor-de-rosa que ela havia feito e pendurado em seu pescoço! Ela disse que era a sua nova coleira! Eu sei que agora, garotão, você já deve ter encontrado com o Jean Luc. Lembro de como você rosnava para aquela bolinha de pêlos pretos quando ele esbarrava em você -- mas você nunca o mordeu -- e de como você sempre vinha me alertar quando ele estava prestes a ter mais uma crise de convulsão. Tenho certeza de que Jean Luc te amava e será o primeiro a te receber quando você cruzar a ponte. Ele vai esbarrar em você, mas não vai mais doer, pois a tua artrite terá ido embora e ele não terá mais convulsões. Tenho certeza de que ele te agradecerá pela sua ajuda e dirá como está feliz agora. Depois ele te mostrará onde encontrar os melhores bifes e aqueles biscoitos saborosos de cachorro, aqueles que nunca consegui fazer com que os vizinhos parassem de te dar por causa da alergia que você tinha ao corante vermelho… Nossa, como você gostava daqueles biscoitos! Hoje, quando fui chamar a Reneé para saber se ela queria se despedir, e ela disse sim, queria que ela tivesse tentado dar mais alguns biscoitos para você, e você os aceitasse. Você gostava tanto deles… Micheal, vou sentir a sua falta, meu filho. Eu sempre reclamava dos pêlos que você deixava pela casa, mas, apesar de ser um pastor alemão, você era um dos meus preferidos. Um poodle honorário que soltava muito pêlo! Agora eu preciso ir, meu garoto, não estou mais me agüentando. Vou dormir, provavelmente vou sonhar com você. Preciso recarregar as baterias, meu príncipe. Espero que você e o Jean Luc estejam correndo atrás de borboletas por um enorme campo florido mais uma vez. Da sua mãe, Rhonnie 13 de agosto de 1999 - Uma experiência olfativa Bill e eu já havíamos conversado várias vezes sobre a inevitável passagem de Mikies pela ponte do arco-íris. Muitas vezes, esse garotão nos surpreendia com uma reação, e sua saúde voltava de repente. Como eu não tinha tido forças para acompanhar a passagem de Jean Luc, que foi acompanhado por Bill, ficou decidido que dessa vez eu ficaria ao lado de Mikey durante sua passagem. Ele os vinha acompanhando há 13 anos, assim, para Bill, seria muito mais fácil se tudo fosse feito enquanto eles estivessem no trabalho e no colégio. Eu nunca me senti tão forte quanto ao olhar em seus olhos, cheios de dor, e dizer-lhe que ele nunca mais sentiria dor. Alguns dizem que os cães nos avisam quando é chegada a hora. Hoje, acredito demais nisso. Beijei sua pata grande e olhei em seus olhos, que não demonstravam dor, medo ou remorso… Isso foi ontem. Depois do enterro, chorei até dormir, e dormi pesado. Eu não estava chorando pelo Micheal. Estava chorando por mim. Eu sabia que sentiria a sua falta. Hoje, Bill me deu flores quando saímos para um passeio. Quando estávamos na rua, conversamos sobre como seria a lápide de Micheal. Decidimos que colocaríamos uma lápide de cimento em seu túmulo, e toda a família imprimiria suas mãos e patas nela. Decidimos também que as cinzas de Jean Luc seriam colocadas no local, juntamente com o memorial de Tara. Ao chegarmos em casa, sentimos no ar um cheiro que fez com que nos olhássemos imediatamente… Como podia??? Não era um cheiro desagradável, e só podia vir de dois lugares… Mikie e Jean Luc usavam colônias que imitavam colônias masculinas de marca. Mikie usava a Gambler e Jean Luc, a Stetson. Quando eles ficavam juntos, aquele era o cheiro resultante… Nós sempre nos divertíamos, imaginando como poderíamos unir as duas fragrâncias e ganhar um dinheirão! Foi com esse cheiro que fomos recebidos. Parece que os meninos estão perambulando juntos por aí, se divertindo. Dá uma sensação maravilhosa por dentro, me senti muito bem!!! Rhonnie, que agora sabe que tudo está bem UM ESQUECIDO PRESENTE DE NATAL Autor desconhecido tradução: Adriana Almeida Era noite, véspera de Natal, quando não havia nenhuma criatura emocionante dentro de casa além de um rato. As meias foram penduradas na chaminé com cuidado, na esperança de que St. Nicholas logo chegaria lá. As crianças estavam acomodadas em suas aconchegantes camas, sem ao menos pensar o que há na cabeça de um cachorro. E mamãe, preparando comida na cozinha e eu em meu cobertor, sabia que o cachorro sentia frio, mas nem liguei para isso. De repente ouço um barulho, como um estardalhaço. Dei um pulo da cama para ver qual era o problema. Fui para a janela como um raio e descobri que o cachorro estava livre, sem as correntes e que estava esparramando o lixo. A lua, no meio de uma tempestade de neve, estava tão brilhante que dava a impressão de ser meio-dia. Quando apareceru maravilhosamente na frente dos meus olhos o belo Papai Noel, mas com os olhos cheios de lágrimas. Ele desacorrentou o cachorro impulsivamente, com muita agilidade. O nosso presente de Natal do último ano, agora se encontra magro e doente. Com a rapidez de uma águia, ele chamou o cachorro pelo nome. E o cachorro correu para ele, apesar de toda a dor que sentia. - "Agora, minhas queridas renas, agora Dasher!, Dancer!, Prancer e Vixen! Vamos Comet! Cupid, Donder e Blitzen! Para a varanda! Para o muro! Nós vamos encontrar um lar para este cachorro, onde ele será amado por todos". Eu sabia, em um instante, que não teria presentes este ano, porque Papai Noel fez uma coisa bastante clara, onde ganhar um cachorro de presente não é somente para uma temporada, nós criamos o filhotinho de forma errada com a pressa de pensar no presente para as crianças. Havia algo de muito importante que foi esquecido. Um cachorro seria uma família, e cuidaria dele mesmo. Você não dá um presente quando o coloca em correntes. E eu o ouvi exclamar como ele estava cego para a vida. - "Você não estava dando um presente! Você estava dando uma vida!" |